Religiosos condenam política na Igreja. A cada 10 praticantes, 8 são contra.
Pesquisa aponta que os brasileiros condenam a ligação entre política e religião, principalmente usar os púlpitos das igrejas e templos a favor dos políticos.
Uma nova pesquisa nacional trouxe um dado que chama atenção em meio ao cenário político brasileiro: oito em cada dez brasileiros são contrários à discussão de política dentro de igrejas e outros espaços religiosos.
O levantamento, chamado “Religião e Vida Pública no Brasil”, foi realizado pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), com execução de campo da Quaest. A pesquisa ouviu 15 mil pessoas com 16 anos ou mais, presencialmente, em 412 municípios de todas as regiões do país, incluindo as 27 capitais e o Distrito Federal.
Os dados foram divulgados em setembro de 2026 e fazem parte de um estudo mais amplo sobre a relação entre fé, valores, comportamento, religião e participação na vida pública brasileira.
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Oito em cada dez rejeitam política dentro das igrejas
O principal dado que chamou atenção é a rejeição à presença da política institucional nos espaços religiosos.
Segundo a pesquisa, aproximadamente 80% dos entrevistados não aprovam discussões políticas dentro de igrejas, templos e outros espaços religiosos. O resultado aparece de maneira semelhante entre diferentes grupos religiosos, incluindo católicos, evangélicos e pessoas de outras religiões.
O resultado mostra que, embora religião e política façam parte da vida pública brasileira, muitos fiéis estabelecem uma diferença entre participar da sociedade e transformar o espaço de culto em ambiente de campanha eleitoral.
Rejeição é ainda maior quando aparecem candidatos
Quando a pergunta envolve diretamente a presença de candidatos nos templos, a resistência aumenta.
Nove em cada dez entrevistados afirmaram ser contrários a que líderes religiosos permitam a presença de candidatos em suas igrejas para fins eleitorais. O índice também apresenta pouca diferença entre os principais grupos religiosos pesquisados.
Isso significa que a maioria dos entrevistados não deseja que o momento de culto ou reunião religiosa seja utilizado como espaço para apresentação de candidatos ou busca direta de votos.
A pesquisa não mostra falta de interesse pela política
Um ponto importante é que os números não devem ser interpretados como se os brasileiros não tivessem interesse por assuntos políticos.
A pesquisa do ISER procura justamente compreender como religião, valores, escolhas políticas e participação social se relacionam.
O estudo aponta, por exemplo, que 54% dos entrevistados se consideram conservadores, enquanto 24% se definem como progressistas. Ao mesmo tempo, existem diferentes opiniões sobre questões sociais e econômicas, mostrando que pertencimento religioso não determina automaticamente uma única posição política.
Portanto, rejeitar a campanha eleitoral dentro da igreja é diferente de deixar de participar da sociedade ou de não possuir opiniões sobre os rumos do país.
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A influência das lideranças religiosas continua existindo
Outro aspecto revelado pela pesquisa é que a rejeição dos fiéis à política nos templos convive com relatos de influência de lideranças religiosas sobre escolhas eleitorais.
Entre os entrevistados, 11% afirmaram ter recebido orientação de líderes religiosos para votar em Jair Bolsonaro nas eleições de 2022, enquanto 5% disseram ter recebido orientação para votar em Luiz Inácio Lula da Silva.
Entre determinados segmentos evangélicos, os percentuais foram ainda maiores. O levantamento encontrou diferenças de acordo com o tipo de igreja e o perfil dos entrevistados.
Esses dados ajudam a mostrar que a relação entre fé e política no Brasil é mais complexa do que simplesmente dividir os religiosos entre grupos políticos.
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Política também circula nas redes sociais religiosas
Se dentro dos templos existe forte rejeição à discussão política, o mesmo não significa que o assunto esteja ausente das comunidades religiosas na internet.
A pesquisa identificou circulação de conteúdo político em grupos e comunidades religiosas nas redes sociais.
Entre as pessoas que participam desses espaços, 48% dos usuários do Facebook disseram observar com frequência ou sempre conteúdos políticos compartilhados por outros integrantes, enquanto no WhatsApp o percentual chegou a 34%.
Isso mostra que a relação entre religião e política não acontece apenas durante cultos, missas ou reuniões. As redes sociais também se tornaram importantes espaços de conversa, informação e influência.
O que os números dizem sobre as igrejas?
Os resultados levantam uma reflexão importante para líderes religiosos e membros de igrejas.
Para grande parte dos brasileiros, o templo possui uma função que vai além de qualquer disputa eleitoral. É um espaço associado à fé, à oração, à comunhão, ao ensino religioso e ao relacionamento com Deus.
Ao mesmo tempo, os cristãos continuam sendo cidadãos e possuem liberdade para participar da sociedade, acompanhar decisões públicas e formar suas próprias opiniões.
A diferença apontada pela pesquisa está principalmente no uso do espaço religioso para fins eleitorais.
Fé e cidadania podem caminhar juntas
A participação do cristão na sociedade não precisa significar transformar a igreja em palanque.
A Bíblia apresenta diversos ensinamentos relacionados à responsabilidade, à justiça, à verdade, ao cuidado com o próximo e à vida em comunidade. Esses princípios podem orientar a maneira como cada pessoa exerce sua cidadania.
O desafio está em preservar o espaço de culto como ambiente de fé e, ao mesmo tempo, reconhecer que cada cidadão possui responsabilidade diante da sociedade.
Uma igreja pode ensinar princípios bíblicos e falar sobre temas que afetam a vida das pessoas sem necessariamente transformar cada assunto em uma disputa partidária.
O que a pesquisa revela sobre o Brasil religioso?
O levantamento do ISER é mais amplo do que a questão política.
A pesquisa ouviu 15 mil pessoas em 412 municípios, utilizou um questionário com 184 perguntas e investigou religião, práticas de fé, valores, comportamento, consumo de mídia e participação na vida pública. O ISER informa margem de erro de aproximadamente 0,8 ponto percentual, com nível de confiança de 95%.
O estudo também mostra a forte presença da religião na sociedade brasileira. Segundo os dados divulgados pelo instituto, 73% dos brasileiros afirmam ter a Bíblia ou seus versículos como fonte de ensinamentos para a vida. A música gospel também possui amplo alcance: 67% dos entrevistados disseram consumi-la.
Esses números ajudam a entender que a religião continua ocupando um espaço importante na vida de milhões de brasileiros, mesmo em um cenário de mudanças religiosas e sociais.
Uma reflexão para quem vive a fé
Os resultados da pesquisa podem servir como oportunidade para uma reflexão dentro das próprias comunidades cristãs.
A igreja não precisa ignorar os problemas do país. Questões como pobreza, violência, corrupção, educação, família, liberdade religiosa, solidariedade e justiça fazem parte da realidade das pessoas que chegam aos templos todos os dias.
Mas existe uma diferença entre ensinar princípios e transformar o culto em campanha eleitoral.
A pesquisa indica que a maioria dos brasileiros prefere manter essa separação dentro dos espaços religiosos.
Para o cristão, participar da sociedade também significa exercer discernimento, buscar informações confiáveis, orar, conhecer seus direitos e responsabilidades e fazer suas próprias escolhas de consciência.
Conclusão
A pesquisa “Religião e Vida Pública no Brasil”, realizada pelo ISER em parceria com a Quaest, revela uma forte resistência dos brasileiros à transformação de igrejas e templos religiosos em espaços de disputa eleitoral.
Oito em cada dez entrevistados rejeitam discussões políticas nos espaços religiosos, enquanto nove em cada dez são contrários à presença de candidatos nesses locais para fins eleitorais.
Ao mesmo tempo, os dados mostram que religião e vida pública continuam profundamente relacionadas no Brasil. A fé influencia valores, comportamentos e relações sociais, enquanto as redes religiosas também participam do debate público.
O grande desafio talvez seja encontrar equilíbrio: preservar o espaço de culto, respeitar a consciência de cada fiel e, ao mesmo tempo, permitir que cristãos e cidadãos participem da sociedade de maneira responsável.
A fé pode formar valores para a vida. A decisão política, porém, pertence à consciência de cada cidadão.

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